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Doçura


Rian* - Marcos e Ana Amélia, caricatura

Mal de Amor

 

Toda a pena de amor, por mais que doa,
No próprio amor encontra recompensa.
A lágrima que causa a indiferença
Seca-a depressa uma palavra boa!

 

A mão que fere, o ferro que agrilhoa
Obstáculos não são que Amor não vença
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso, Amor tudo perdoa.

 

Ai de quem muito amou não sendo amado
E depois de sofrer tanta amargura
Pela mão que o feriu não foi curado...

 

Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,

Que o mal do Amor, só nesse Amor, tem cura.

 

Ana Amélia de Queirós Carneiro de Mendonça (1896-1971)
in Alma
Empresa Brasil Ed.
RJ, 1922

 

*pseudônimo artístico de Nair de Teffé



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Tentação V

plasma

 

bola

cristal límpido,

quase um cérebro

de pensamentos contínuos,
insistentes,

em comunicação ilimitada e sem fronteiras.

 

verdade em violeta

colorindo de sonhos e fantasias

o meu olhar,

faz acrobacias de circo

no meu coração.

 

de “Estiletes do Corpo” in Roca do Tempo



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Exemplar único


CALIGO PROMETHEUS

Dentre as muitas histórias sobre a "Caligo", espécie mais bela e rara de borboleta existindo na natureza, uma diz que a do tipo "Prometheus" só se deixa capturar quando ama.

Isso traz à mente o trecho de um livro de Roland Barthes lido tempos atrás, "Fragmentos de um Discurso Amoroso": Encontro em minha vida milhares de corpos; desses milhares, posso desejar algumas centenas; mas dessas centenas, amo apenas um.

Variados são os tipos de borboletas, muitos de rara beleza. Mas há um, um só, se chegando ao coração e nele permanecendo até o fim como a Caligo Prometheus.Única. 



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Iluminuras e Máximas III


Montaigne (1533-92)



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Herança do avô...


Regina Celli Francisco - Copos de Leite, óleo s/tela

Teu Lenço

 

Este teu lenço branco a fio renda

Que trago ao peito como jóia rara

E às mãos me veio tal uma oferenda

De quem quer bem e amor antedatara...

 

Este lenço guardado em forma avara,

Cheio de zelo, entrelaçado em lenda

Como ninguém, feliz, jamais amara

Mais quisesse tão bem como legenda...

 

É para mim o meu maior tesouro,

Arca santa de meus sonhos supremos,

Vergel com frutos de um pomar em ouro;

 

Porque lembra a nós dois, os dois assuntos:

- As venturas que juntos retivemos,

- As tristezas que nós choramos juntos...

 

Raul Coelho de Albuquerque da Costa Braga (1885-1965)
in Poesias Coligidas

UFPA/APL
Belém, 1963



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Presente

Não foi só o Manuel Bandeira ganhando um porquinho-da-índia...



Veja o outro piggie no Blog de OleSchmitt

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Guia IV


Confucio (551-479aC)

Não praguejes contra a escuridão. Sê o primeiro a acender a luz.



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Tentação IV


" e esta brasa-viva, queimando e queimando..."
Antonio Botto

brasa viva

 

o encontro

   encanto


nas lutas de velas


amareladas, amanhecidas

 - naus carregadas

 

com pesados fardos do coração

       incerto alvo


em busca e alinhando-se

 

à flecha partindo atrás de flecha eterna*

 

 

de "Estigmas da Alma" in Roca do Tempo

 

*in Mario Faustino



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Chico Buarque & Inquisição


Auto-de-fé português, 1683

Jornais noticiaram com destaque o último relatório elaborado pelo Vaticano a respeito da Inquisição, certamente ainda incomodado com o pedido oficial de "desculpas" do papa João Paulo II, anos atrás, sobre esse abominável período da humanidade. 

 

Reconhece-se o valor e o mérito da humildade inerente às desculpas, mas elas não trazem de volta à vida todos os sentenciados às fogueiras, não restauram os corpos torturados e supliciados nas masmorras do "Santo" Ofício, não reabilitam moralmente os falsamente denunciados em troca de favores, nem amenizam a violência dos autos-de-fé, eufemismo de macabros espetáculos teatrais montados para o deleite do alto clero e da nobreza.

 

Segundo o curioso e inóspito "relatório" elaborado por Agostino Borromeu, "cientista” provavelmente com estreitas ligações a altas esferas politico-administrativas da muito-pouco-e-quase-nada “Santa“ Sé, a Inquisição não foi assim tão violenta e nefasta como narram os historiadores nos seus documentos: "não foi tão má como se costuma crer, pois apenas 1,8% dos investigados foram mortos", pois usavam "bonecos" (sic)  no lugar das pessoas com o intuito de amedrontá-las. 

 

A pensar na ganância de poder de Gregório IX - criador da Inquisição, na fúria insana de Torquemada e de Urbano VIII, na infame sentença de morte de Giordano Bruno e no injusto e humilhante sofrimento de Galileu Galilei, séculos depois reabilitado por essa mesma trôpega e mutante "Igreja", oscilando ao sabor dos ventos e das marés que lhe forem propícios, a letra de Chico Buarque para a música “Vai Passar”, de Francis Hime, cabe como uma luva:

 

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações.
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais...

 

E mais uma vez, neste século XXI a cada dia mais semelhante à Idade Média pelos absurdos que apresenta, ”o estandarte do sanatório geral” é nova e gloriosamente hasteado nas praças e ruas das grandes metrópoles, iniciando mais um dantesco espetáculo. Desta feita, o da manipulação e da mentira ignóbil.

Triste, mas nada que ainda possa surpreender...



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Assim...


RVRparis - Roseira

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
(13.8.1933)

Fernando Pessoa
in Novas Poesias Inéditas



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Flor & Amor


Para você, a quem amo.



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A mesma paixão de Rousseau

 

Je raffole de la botanique : cela ne fait qu'empirer tous les jours.
Je n'ai plus que du foin dans la tête, je vais devenir plante moi-même, un de ces matins...

 

Jean-Jacques Rousseau - Lettre à Mme Delessert, le 1er Août 1765

 



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